Motorola diz que segue regras de transparência, mas as evidências mostram o contrário

Motorola diz que segue regras de transparência, mas as evidências mostram o contrário

Motorola sofreu derrota em entidade que regulamenta a publicidade no país (imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Resumo

A Motorola foi condenada pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) por veicular informações enganosas sobre smartphones.
A empresa alega manter o compromisso com a transparência e a clareza das informações, mas evidências disponíveis em sua loja oficial mostram o contrário.
A decisão do Conar determina que a Motorola deve adequar a divulgação de informações sobre a memória RAM de seus aparelhos.

A Motorola se pronunciou pela primeira vez desde que foi condenada no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) por veicular informações enganosas sobre smartphones. O caso foi revelado pelo Tecnoblog com exclusividade. Neste sábado (26/09), a companhia afirmou manter o “compromisso com a transparência e com a clareza das informações”, mas as evidências disponíveis na loja oficial dela mesma mostram o contrário.

A encrenca começou quando a marca passou a destacar os celulares com “até 24 GB de RAM”, há cerca de um ano e meio. Para chegar a este número, ela somou a tradicional RAM física com a RAM virtual, o que é incomum no mercado brasileiro. A situação foi levada ao Conselho de Ética do Conar, que decidiu, por unanimidade, que a empresa precisa adequar a divulgação de informações.

Em nota ao Tecnoblog, a Motorola disse que “a alteração requerida pelo Conar já havia sido implementada em nossos canais próprios desde o início de agosto”. Essa informação não procede. A nossa equipe de reportagem realizou uma averiguação ontem (25/09) e encontrou inúmeros produtos com descrições que feriam a orientação do Conar.

Página do Edge 70 Pro cita “até 24 GB de RAM” em letras garrafais (imagem: Thássius Veloso/Tecnoblog)

Pelo que notamos, a Motorola alterou algumas dessas páginas ao longo da própria sexta-feira, depois que demos a notícia em primeira mão e outros veículos de imprensa também repercutiram o caso. Ou seja, o timing citado na resposta não tem embasamento factual.

Nós procuramos o departamento de comunicação da Motorola com novos questionamentos a respeito disso, porém a empresa não quis responder. O espaço segue aberto.

Inconsistência no comunicado

O comunicado da Motorola esbarra em outro ponto que carece de comprovação: ele alegou que a prática de somar RAM física e RAM virtual seria um “padrão de mercado”. Ora, eu cubro jornalisticamente o setor de mobile há mais de uma década e nunca vi isso se tornar praxe. Pelo contrário: colegas da imprensa e os leitores do Tecnoblog já criticaram o cálculo em outras reportagens.

Por outro lado, a companhia sustentou que este formato “continua sendo utilizado por outros fabricantes, concorrentes da Motorola”. Ela tem razão: nós identificamos a questão em páginas de produtos da Xiaomi e da Jovi após realizarmos uma checagem neste sábado (26/09). Já os sites da Apple, Samsung, Realme e Oppo não continham o problema.

Ainda não sabemos se o Conar irá se manifestar sobre os casos similares.

Telefone da Xiaomi também promete “até 12 GB” de memória RAM (imagem: Thássius Veloso/Tecnoblog)

Motorola pode recorrer

O Conar é uma entidade não governamental sem poder de Justiça nem de polícia. Mesmo assim, suas decisões são rigorosamente respeitadas pelos setores de mídia e publicidade. Seu regulamento prevê a possibilidade de recorrer da decisão. A Motorola disse em nota que analisará o teor da decisão “para avaliar ações adicionais”.

O que é RAM virtual?

No cerne da questão está a diferenciação entre RAM física e RAM virtual. Colocando de forma grosseira, a primeira depende de um chip fisicamente dedicado para guardar certas informações processadas pelo dispositivo. Ela faz parte do hardware.

A segunda depende de uma técnica que simula memória RAM adicional usando o armazenamento interno do dispositivo. Essa função de gerenciamento visa otimizar o desempenho geral e permitir que mais aplicativos sejam executados simultaneamente. Ela depende de software.

RAM virtual é usada para ampliar a quantidade de RAM física (imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

Essa função está presente em inúmeros aparelhos vendidos no Brasil. Nos nossos testes, foi possível perceber um leve ganho quando o chamado RAM boost está ativo. Isso significa que, do ponto de vista do consumidor, é muito bem-vindo ter a ferramenta à disposição para um momento de maior necessidade.

É preciso ter em mente que o processo no Conar não foca na parte técnica da coisa, mas sim na forma de comunicar. O Conselho de Ética entendeu – voltamos a dizer: por unanimidade – que a prática da Motorola precisa ser revista. O Tecnoblog apurou que o processo correu por semanas antes do desfecho nesta quinta-feira (24/09).

Nos conte nos comentários: na sua visão, a decisão do Conar está correta ou a Motorola tem razão nessa história?

Confira a resposta da Motorola na íntegra

“A Motorola mantém seu compromisso com a transparência e com a clareza das informações disponibilizadas aos consumidores. Consideramos fundamental comunicar as especificações de memória de forma clara e objetiva. A alteração requerida pelo Conar já havia sido implementada em nossos canais próprios desde o início de agosto. Seguiremos desta forma, independente de o formato anterior, que era padrão do mercado, continuar sendo utilizado por outros fabricantes, concorrentes da Motorola. Analisaremos o teor da decisão, que já havíamos acatado, para avaliar ações adicionais.”

Motorola diz que segue regras de transparência, mas as evidências mostram o contrário

Motorola diz que segue regras de transparência, mas as evidências mostram o contrário
Fonte: Tecnoblog